sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O Guerreiro Solitário - Parte 2


...mas só não se esqueça que depois da ponte há o paraíso.
--- Quem te disse?
--- Só sei. E nunca deve ser esquecido. Fico por aqui, não consigo mais andar. Pode ir sem mim, pois o caminho ainda é longo e o paraíso não será o bastante pra você.
--- Será sim. E quero que você vá comigo. Não teria a mesma graça. Não teria o mesmo significado.
---Não posso. Não aguento mais andar. Minhas calças estão manchadas de sangue e o pior que nem mesmo é meu! Além disso prefiro me despedir de você aqui do que lá, quando você partir em busca de algo novo. Prefiro me despedi de você comemorando uma conquista e não saindo em busca de algo pra te completar. Prefiro assim, com a sensação de dever cumprido, do que comigo, no Paraíso e sentindo um vazio.
--- Não quero nada além do paraíso.
--- Quer sim. Só não sabe ainda. Como não sabia antes de partirmos. Era o suficiente pra mim. Mas você não quis ficar e eu tive que fugir também, pois você é o suficiente pra mim e nada mais. Agora vá! Já vai escurecer.
--- Vou arrumar água e voltarei pra te buscar. Ficaremos bem. Posso te carregar depois que você matar sua sede e descansar.
E assim, seremos pra sempre felizes. No Paraíso!
--- Não faça isso!!! Quando voltar, não estarei mais aqui. Vou voltar e tentar salvar o que ainda restou de mim, das minhas coisas, dos meus sonhos. Em outro lugar.
--- E onde estará?
--- Esperando você acordar. Esperando você enxergar que vivemos hoje o momento mais feliz de nossas vidas. Que nada do que há depois daquela ponte vai superar o que sentimos aqui desse lado. Conquistamos muito e estou bem assim.
--- E onde você estará?
--- Estarei no Ontem. Estarei naquele dia em que bateu a minha porta e falou que devíamos fugir, pois a felicidade nos esperava há muitas milhas de onde estávamos. E no final descobri que você não estava mentindo. Eu encontrei a felicidade. Encontrei o tesouro que procurava há muitas milhas atrás. Só você não viu!
--- Eu voltarei pra te buscar. Eu prometo!
--- Não me importa mais...
   Desiludido, seguiu rumo a travessia da ponte. Seguia rumo ao encontro daquilo que sonhava desde que largou tudo e se lançou nessa aventura. Seria o ápice de sua conquista. Seria o apogeu de sua felicidade. Seria... Pois antes de chegar ao final já não se sentia mais satisfeito...



Volto Já


O que é seguir?
O que é viver?
Saber...
Conhecer...
Apenas andar, sem parar...
Olhar o sol? A Lua?
Admirar as estrelas que não fizeram nada para brilhar?
Pode ser.
Sei o que as pessoas pensam.
Sei o que elas sabem.
Sei até o que elas podem fazer.
Mas não sei o que penso.
Não sei o que fazer.
Não sei admirar apenas.
Conheço o mundo, mas não me conheço.
Conheço pessoas, mas não me conheço.
Conheço a vida, alheia.
O que é seguir?
O que é viver?
É saber que não sabe de nada?
É tentar entender o que não entende?
É correr atrás do inalcançável?
Apenas deixe levar.
Não corra, Não ande, não tente
Sente á beira da praia e espere a aguá tocar seus pés
Faça café e espere a morte bater sua porta
Fria, sombria e inevitável
Não corra, não canse, não durma, não ame
não viva, escolha o nada
o vazio
o infinito
o desconhecido
O que é seguir?
Qual é o caminho?
Qual é a direção?
Qual é a diferença?
Nenhuma.
Siga o seu caminho.
Ou pegue uma cadeira e espere a minha volta.
Pois todo mundo sempre volta pra casa.


Antes das Cinzas - parte 01


As vezes pensamos muito sobre o objetivo de certas coisas. O porque de estarmos fazendo isso só pra parecer socialmente correto. Mas o que queríamos de fato é simplesmente ignorar tais coisas.
Me perguntei o dia todo porque eu tinha que dirigir 60km pra zona rural da cidade pra fazer uma visita a minha tia que pouco se importa com a minha vida. Claro que a insistência de sua filha pra eu leva-la conta e muito. Mas queria só testar um dia de honestidade e virar pra ela e dizer: "Estou pouco me fudendo pra sua mãe".
Acho que não ia ser legal. Seria o início de uma guerra familiar, com certeza.
Me pergunto também porque aceitei sair as 18:30h, segundo minha prima, simplesmente pra "aproveitar" melhor o final de semana. Certamente eu não aproveitaria nada e duvido muito que ela também se divertiria numa casa que está esquecida no século 18. Mal tem energia elétrica, fogão a lenha, uma tv antiga e um casarão velho com 6 quartos pra somente 3 pessoas. Não era o final de semana que eu estava esperando pra mim.
Já são 19:15h, a noite já caiu e o breu toma conta da estrada. Saímos da rodovia faz 20 minutos pegamos um caminho de chão rumo á algum povoado rural. Uma neblina começa a descer no nosso caminho. Coisa rara nessa região, mas considerando o tempo instável, com chuvas a qualquer momento, não é de se estranhar muito. Mas tenho a sensação de que não é algo assim tão normal...
Pouco nos falamos durante a viagem. Eu, cansado de um dia inteiro naquele escritório, não estava muito pra conversa. Acho que ela sentiu isso e se limitava a tentar me animar falando sobre os dotes culinários de minha tia. Nem a comida conseguiu me animar. Definitivamente eu estava de mal-humor.
--- Como vai sua namorada? --- perguntou minha prima.
--- Vai bem.--- limitei-me a uma resposta seca e um sorriso forçado.
--- Bom. Vocês fazem um bonito casal!!
--- Obrigado!
No mesmo instante que agradeci, ela apontou o dedo pra estrada e perguntou assustada:
--- O que é aquilo no meio da estrada?
Diminui a velocidade até parar o carro na frente da coisa que a assustou. Desci e fui averiguar. Uma vaca morta. Mas não somente morta. Sua barriga foi completamente devorada. Os urubus em volta davam a entender que já fazia algum tempo que ela estava ali.
Voltei pro carro meio intrigado.
--- Deve ter pouco mais de 5 horas que essa vaca está morta ai na estrada e ninguém tirou ainda. Pensei que passasse mais pessoas por essa estrada.---disse.
--- Pode ser por causa do casamento que teve a tarde no povoado. Todos devem estar na festa e ninguém voltou ainda. Realmente não existe muito tráfego por essa estrada.
--- Pode ser. Não há sinal de que algum carro passou por aqui por essas horas. Mas o que me intriga mesmo é que a vaca está devorada quase completamente.
--- Os urubus fazem um estrago grande.
--- Acho que é uma festa pra eles também. --- falei, demonstrando um pouco de humor.
Liguei o carro e passei pela vaca espantando os urubus.
Mas algo realmente intrigante aconteceu. Ao passar pelo corpo, ouvi quase que nitidamente a vaca mugir. Olhei espantado pra minha prima e perguntei:
--- Você ouviu isso?
--- Isso o que?
--- A vaca mugindo. Não ouviu? --- perguntei com os olhos de espanto.
Minha prima riu de mim. Ri junto, fingindo estar brincando com ela e voltei meus olhos pra estrada de novo. Mas não tirei da cabeça o mugir quase nítido da vaca. Seria possível um animal sobreviver tanto tempo agonizando, sem metade do corpo e sendo devorado por carniceiros? Queria a todo custo acreditar que sim. Que os animais tem um grande poder de sobrevivência e que com certeza algo na ciência explicaria aquilo. Queria mesmo, mas não me convenci.

E que haja luz?

Não por acaso fiquei sabendo do acontecimento do dia (ou madrugada): FALTOU ENERGIA ELÉTRICA!
Mesmo  presenciando isso, mesmo a Bahia presenciando isso, mesmo o nordeste inteiro presenciando isso, não faltaram pessoas "avisando" pelas redes sociais!
Por que é pra isso que elas servem hoje em dia: dar o furo do óbvio!
Ou pior: anunciar o desinteresse!
"Que calor!" "Nossa! Esta chovendo!" "GOOOOOOOOOOOOL!!"

Mas o foco total desse post não é esse e sim... NADA!
Isso! Como a escuridão que varreu todo lado do país!
Nada!
E o que se fazer no nada quando colocamos tudo hoje em função da "energia"?
"Use o celular até a bateria acabar!"

Mudou-se o foco?
Fiz algo que realmente alegrou minha pequena e escurecida alma: acendi uma vela (sim, tenho velas em casa e não foi minha mãe quem comprou), fui pra varanda e coloquei em dia a leitura de um livro que a tempos venho enrolando.
E enrolo justamente pelo tempo que a "energia" e seus brinquedos me consomem.

Sem mais, pois na realidade eu queria simplesmente postar uma foto, mas não queria deixar em branco. "Uma imagem vale mais que mil palavras".
Mas no contexto vale 100000!!!


Note a luz da vela! É um convite!


quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Green Hill Zone



Me cansei desse jogo de frases
Dessas fases intermináveis
Onde cada desafio é um chefão

Me cansei desse jogo de cartas
Marcadas com batom
Que só as conhecem os espertos

Me deixo levar pela leveza
Me deixo vestir meu terno
Mas não tenho terno!
Então, de quem será esse?

Me canso fácil do que é fácil
Me faço de difícil no que é seguro
Me escondo no claro, no vazio
E tenho certeza que ninguém me vê

Me cansei de pensar no antes
O depois é muito mais estressante
Do que qualquer simples vontade de voltar

O que quero?
Quero o caro vinho barato da vitória
Pois só os dignos, os realmente vencedores
Pagaria tão caro por tão pouco... aos olhos dos outros!

Ao Outubro...


E o vento começa a soprar pros lados de lá.
O LÁ não conheço.
Mas sei que é bem melhor do que o AQUI.
Ou pelo menos o AGORA.

O mês se vai e com ela o desagrado.
O outro que vem, chega com uma esperança ao menos:
CHUVA!
Aquela que lava e renova o amanhecer de quem espera
Mesmo sentado, um novo dia
Eu espero em pé
Acordado, vejo o sol sair entre o horizonte lambuzado de nuvens
vermelhas, ásperas, estranhas
parecem não aceitar o novo dia
mas logo não são mais um impe-cílio

O mês que chega traz no próprio ar um cheiro novo
úmido, gentil, estranho
Me esqueço a cada derrota do cheiro da vitória
mas nunca esqueço o cheiro da chuva.

Que ela traga o alivio que precisamos
Tanto do tempo quanto da paz
que ela lave, não somente a estrada por onde passo,
mas também os meus pés.
Que já estão sujos de tanto voltar.

Andei, caí, levantei, caí, caí e caí
Mas posso novamente me levantar.
Outubro não. Esse se vai pra sempre.
E por mais que ano que vem te deem outro mês
O nome não já diz nada.
Não é você.
É outro!