sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Antes das Cinzas - parte 01


As vezes pensamos muito sobre o objetivo de certas coisas. O porque de estarmos fazendo isso só pra parecer socialmente correto. Mas o que queríamos de fato é simplesmente ignorar tais coisas.
Me perguntei o dia todo porque eu tinha que dirigir 60km pra zona rural da cidade pra fazer uma visita a minha tia que pouco se importa com a minha vida. Claro que a insistência de sua filha pra eu leva-la conta e muito. Mas queria só testar um dia de honestidade e virar pra ela e dizer: "Estou pouco me fudendo pra sua mãe".
Acho que não ia ser legal. Seria o início de uma guerra familiar, com certeza.
Me pergunto também porque aceitei sair as 18:30h, segundo minha prima, simplesmente pra "aproveitar" melhor o final de semana. Certamente eu não aproveitaria nada e duvido muito que ela também se divertiria numa casa que está esquecida no século 18. Mal tem energia elétrica, fogão a lenha, uma tv antiga e um casarão velho com 6 quartos pra somente 3 pessoas. Não era o final de semana que eu estava esperando pra mim.
Já são 19:15h, a noite já caiu e o breu toma conta da estrada. Saímos da rodovia faz 20 minutos pegamos um caminho de chão rumo á algum povoado rural. Uma neblina começa a descer no nosso caminho. Coisa rara nessa região, mas considerando o tempo instável, com chuvas a qualquer momento, não é de se estranhar muito. Mas tenho a sensação de que não é algo assim tão normal...
Pouco nos falamos durante a viagem. Eu, cansado de um dia inteiro naquele escritório, não estava muito pra conversa. Acho que ela sentiu isso e se limitava a tentar me animar falando sobre os dotes culinários de minha tia. Nem a comida conseguiu me animar. Definitivamente eu estava de mal-humor.
--- Como vai sua namorada? --- perguntou minha prima.
--- Vai bem.--- limitei-me a uma resposta seca e um sorriso forçado.
--- Bom. Vocês fazem um bonito casal!!
--- Obrigado!
No mesmo instante que agradeci, ela apontou o dedo pra estrada e perguntou assustada:
--- O que é aquilo no meio da estrada?
Diminui a velocidade até parar o carro na frente da coisa que a assustou. Desci e fui averiguar. Uma vaca morta. Mas não somente morta. Sua barriga foi completamente devorada. Os urubus em volta davam a entender que já fazia algum tempo que ela estava ali.
Voltei pro carro meio intrigado.
--- Deve ter pouco mais de 5 horas que essa vaca está morta ai na estrada e ninguém tirou ainda. Pensei que passasse mais pessoas por essa estrada.---disse.
--- Pode ser por causa do casamento que teve a tarde no povoado. Todos devem estar na festa e ninguém voltou ainda. Realmente não existe muito tráfego por essa estrada.
--- Pode ser. Não há sinal de que algum carro passou por aqui por essas horas. Mas o que me intriga mesmo é que a vaca está devorada quase completamente.
--- Os urubus fazem um estrago grande.
--- Acho que é uma festa pra eles também. --- falei, demonstrando um pouco de humor.
Liguei o carro e passei pela vaca espantando os urubus.
Mas algo realmente intrigante aconteceu. Ao passar pelo corpo, ouvi quase que nitidamente a vaca mugir. Olhei espantado pra minha prima e perguntei:
--- Você ouviu isso?
--- Isso o que?
--- A vaca mugindo. Não ouviu? --- perguntei com os olhos de espanto.
Minha prima riu de mim. Ri junto, fingindo estar brincando com ela e voltei meus olhos pra estrada de novo. Mas não tirei da cabeça o mugir quase nítido da vaca. Seria possível um animal sobreviver tanto tempo agonizando, sem metade do corpo e sendo devorado por carniceiros? Queria a todo custo acreditar que sim. Que os animais tem um grande poder de sobrevivência e que com certeza algo na ciência explicaria aquilo. Queria mesmo, mas não me convenci.

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