quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Cebolas Mortas


Uma lágrima solitária cai do olho de um estranho.
Ela me pertence.
Ela é minha.
Minha lágrima revoltada.
Sabe que não teria liberdade em meus olhos.
Sabe que prometi não mais chorar por cebolas mortas.
E muito menos por ilusões promíscuas.
Vai, minha filha!
E molhe o rosto de outro iludido.
O meu já esta molhado com a água da pia...

(07-04-12)

A Morte do Medo


Somente sozinho você é honesto.
Somente sozinho você consegue ser verdadeiro consigo mesmo.
Não há como esconder seus medos ou suas ansiedades.
Não existe um meio de ignorar ou mentir.
É só você que se conhece.
É só você que chora sem remorsos ou vergonha.
Derrama suas lágrimas sem se importar com um nariz vermelho ou as secreções nasais que escorrem.
Chorar de rir, de angústia, de tristeza e principalmente de medo.
Medo da morte, medo da vida. Medo dos mortos, medo dos vivos.
Às vezes não se sabe diferenciar.
O que é pior?
O que seria pior?
Pelo que seria melhor chorar?
De medo?
Às vezes não se sabe diferenciar.
Mas ainda assim se consegue sentir medo.
Sozinho!
Só seus próprios barulhos te atrapalham.
Só seu soluçar te tira a concentração e lhe dá arrepios.
Por que o silêncio é tão devastador?
Por que a necessidade de se criar um barulho para afastar o receio da ausência do som?
Será que o silêncio nos faz ouvir o que realmente pensamos?
Será que só assim aceitamos nossos defeitos?
E quanto ao escuro?
Ah, o escuro!
O Medo do desconhecido à flor da pele.
O que será que há a dois centímetros de onde estou? --você pensa.
O que há do outro lado da sala?
O que há do outro lado da rua?
O que há do outro lado da vida?
O que é a morte?
Medo, somente?
Medo do desconhecido.
É o escuro e o silêncio personificados.
É a sua solidão no meio do nada.
É a sua vida no meio de tudo.
É o seu corpo no meio da sala.
É você... somente você no seu universo.

(12-04-10)

A Espiral do Silêncio




Silêncio...
Da saudade se fez o vento.
Das nuvens fizeram sonhos.
Com minhas lágrimas regaram as rosas vermelhas do jardim.
E tentaram me esconder do mundo!
Ainda era forte!
Eu ainda sabia voltar pra casa!
Mas o medo morava ao meu lado.
E ao lado do medo moravam as dúvidas.
Aguçadas dúvidas sobre o mundo.
Sobre o meu mundo.
Sobre a minha vida!
E minha vida se resumia em um único nome.
E desse nome construíram sonhos.
E desses sonhos fizeram a força.
E foi por essa mesma força que caí...
Já não era nada!
Já não era forte!
Já não sabia voltar pra casa!
E fiquei ali, jogado no chão.
Silêncio...
...
...
...
...
...
Só o silêncio conseguiu me convencer!

(18-06-08)

Júlia


A noite estava clara e as estrelas pareciam conversar com ela. Sentada na varanda, Júlia não tinha mais dúvidas. A certeza cobria todo o seu corpo e a aquecia como um cobertor. Não tinha muito que pensar. Suas coisas mais valiosas cabiam sem problemas em uma pequena mochila. Ela sabia que o que contaria mesmo era a razão, o motivo disso tudo. Já não pensava em mais ninguém. Era madura suficiente para decidir fugir. Já não se preocupava com ela mesma, pois o medo iria afastá-la ainda mais de seu amor.
Ela deu mais uma olhada para o céu, fechou os olhos e pensou nele. Pensou no pouco mais intenso momento que passaram juntos. Pensou na sua vida antes de conhecê-lo e de como pedia a Deus todas as noites por alguém como ele.
Com certeza não era mais uma garotinha. Ela sabia o que sentia. E sabia que não era somais um capricho seu.
Júlia suspirou fundo e subiu. Foi até o seu quarto, pegou uma mochila e começou a colocar suas coisas. Não sabia o que deixar pra trás. Cada objeto que ficava de fora era como se deixasse um filho pra trás.
Mas como se uma pedra a acertasse na cabeça, Júlia percebeu que nada daquilo teria mais importância. Tinha vivido toda a sua vida se apegando a sentimentos e coisas banais, e agora, já não dava tanta importância àquilo tudo.
Esvaziou a mochila, pegou duas blusas e uma saia, três ou quatro objetos pessoais e pronto. Só iria precisar disto.
Colocou a mochila nas costas e desceu as escadas.
Por um momento pensou em seus pais. O que eles iriam pensar dela?
Mas logo apagou aquele pensamento.
Pela primeira vez em todos os seus 18 anos, Júlia foi egoísta. Na sua cabeça só havia um pensamento: Eu quero ser feliz!
E ela sabia que havia apenas um caminho.
Destrancou a porta com cuidado. Quando ia saindo se lembrou de algo.
Jogou a mochila no chão e correu para o seu quarto. Abriu a gaveta de calcinhas e procurou o mais fundo possível. Até que seus dedos tocaram a fotografia. Puxou-a entre os dedos e a encarou. Era uma foto dele que ela ganhou na sua despedida.
Júlia acariciava a foto como se tentasse tocá-lo.
De repente uma lagrima solitária desceu de seu olho.
Ela se lembrou daqueles momentos com ele. Os momentos mais felizes de sua vida.
Júlia sentou no chão do seu quarto olhando a foto em suas mãos.
Foi aí que, pela primeira e talvez única vez em toda a sua vida, Júlia sentiu o sentimento máximo que move cada ser humano na terra. Foi ali, sentada no chão do seu quarto, que ela pronunciou as três palavras mais belas que uma boca pode dizer. Júlia apertou a foto entre seu peito e disse: EU TE AMO!
O seu mundo parou. Já não ouvia mais nada. As lágrimas cessaram e o seu coração parou de bater. Foi apenas um segundo, mas pareceu uma eternidade.
Júlia tinha descoberto o amor da maneira mais pura e inocente que pode existir.
Logo aquela alegria se transformou em desespero.
Guardou a foto no seu bolso e voltou para a porta de sua casa. Pegou a mochila do chão e trancou a porta.
Decidiu não olhar para trás. Tocou o bolso onde estava a foto e suspirou.
Começou a caminhar sem parar pela noite clara e deserta.
Júlia já não era mais criança.
Assumiu sua maturidade e foi fazer o seu próprio destino.
Deixou o mundo quente e protegido dos seus pais e se aventurou no sombrio mundo adulto. O mundo real.
Mas nunca se arrependeu disto. Ela foi atrás do que te deixava feliz. O que lhe fazia sentir viva. Preferiu se aventurar ao ficar a mercê do tempo e do destino.
Até hoje guarda aquela foto.
Até hoje guarda aquele amor.

(Goiânia, 2008)