quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Júlia


A noite estava clara e as estrelas pareciam conversar com ela. Sentada na varanda, Júlia não tinha mais dúvidas. A certeza cobria todo o seu corpo e a aquecia como um cobertor. Não tinha muito que pensar. Suas coisas mais valiosas cabiam sem problemas em uma pequena mochila. Ela sabia que o que contaria mesmo era a razão, o motivo disso tudo. Já não pensava em mais ninguém. Era madura suficiente para decidir fugir. Já não se preocupava com ela mesma, pois o medo iria afastá-la ainda mais de seu amor.
Ela deu mais uma olhada para o céu, fechou os olhos e pensou nele. Pensou no pouco mais intenso momento que passaram juntos. Pensou na sua vida antes de conhecê-lo e de como pedia a Deus todas as noites por alguém como ele.
Com certeza não era mais uma garotinha. Ela sabia o que sentia. E sabia que não era somais um capricho seu.
Júlia suspirou fundo e subiu. Foi até o seu quarto, pegou uma mochila e começou a colocar suas coisas. Não sabia o que deixar pra trás. Cada objeto que ficava de fora era como se deixasse um filho pra trás.
Mas como se uma pedra a acertasse na cabeça, Júlia percebeu que nada daquilo teria mais importância. Tinha vivido toda a sua vida se apegando a sentimentos e coisas banais, e agora, já não dava tanta importância àquilo tudo.
Esvaziou a mochila, pegou duas blusas e uma saia, três ou quatro objetos pessoais e pronto. Só iria precisar disto.
Colocou a mochila nas costas e desceu as escadas.
Por um momento pensou em seus pais. O que eles iriam pensar dela?
Mas logo apagou aquele pensamento.
Pela primeira vez em todos os seus 18 anos, Júlia foi egoísta. Na sua cabeça só havia um pensamento: Eu quero ser feliz!
E ela sabia que havia apenas um caminho.
Destrancou a porta com cuidado. Quando ia saindo se lembrou de algo.
Jogou a mochila no chão e correu para o seu quarto. Abriu a gaveta de calcinhas e procurou o mais fundo possível. Até que seus dedos tocaram a fotografia. Puxou-a entre os dedos e a encarou. Era uma foto dele que ela ganhou na sua despedida.
Júlia acariciava a foto como se tentasse tocá-lo.
De repente uma lagrima solitária desceu de seu olho.
Ela se lembrou daqueles momentos com ele. Os momentos mais felizes de sua vida.
Júlia sentou no chão do seu quarto olhando a foto em suas mãos.
Foi aí que, pela primeira e talvez única vez em toda a sua vida, Júlia sentiu o sentimento máximo que move cada ser humano na terra. Foi ali, sentada no chão do seu quarto, que ela pronunciou as três palavras mais belas que uma boca pode dizer. Júlia apertou a foto entre seu peito e disse: EU TE AMO!
O seu mundo parou. Já não ouvia mais nada. As lágrimas cessaram e o seu coração parou de bater. Foi apenas um segundo, mas pareceu uma eternidade.
Júlia tinha descoberto o amor da maneira mais pura e inocente que pode existir.
Logo aquela alegria se transformou em desespero.
Guardou a foto no seu bolso e voltou para a porta de sua casa. Pegou a mochila do chão e trancou a porta.
Decidiu não olhar para trás. Tocou o bolso onde estava a foto e suspirou.
Começou a caminhar sem parar pela noite clara e deserta.
Júlia já não era mais criança.
Assumiu sua maturidade e foi fazer o seu próprio destino.
Deixou o mundo quente e protegido dos seus pais e se aventurou no sombrio mundo adulto. O mundo real.
Mas nunca se arrependeu disto. Ela foi atrás do que te deixava feliz. O que lhe fazia sentir viva. Preferiu se aventurar ao ficar a mercê do tempo e do destino.
Até hoje guarda aquela foto.
Até hoje guarda aquele amor.

(Goiânia, 2008)

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