quarta-feira, 13 de maio de 2015

O dia em que roubaram meus dias


Acordar e perceber que não necessariamente é o amanha em que você esperava acordar.
Parece louco, psicodélico,insano, mas foi assim mesmo que me senti.
Me levantei sabendo que um novo dia não havia surgido em minha vida.
Estava preso na mesma sensação do dia anterior, das noites anteriores.
Não saberia nem ao menos dizer quantos dias não haviam se passado.
E se passaram, quantos ciclos teria perdido aqui.
O mesmo cheiro de desinfetante impregnado no nariz.
O mesmo gosto amargo de conhaque na boca.
A mesma sede insaciável.
A mesma quase fome que quase faz a barriga roncar numa madrugada solitária.
O mesmo trecho de música tocando em loop na cabeça.
A mesma vida..
Levantei-me e fui andar pela casa.
Tudo parecia tão igual e imutável.
Estava tudo ali como deveria estar.
Como uma fotografia revelada em tamanho normal que eu já decorara há anos.
Olhei para meu reflexo no espelho perfeitamente polido e claro.
Lá estava eu mesmo.
Por um instante senti um alivio ao ver que estava mesmo ali.
Depois notei que não saberia dizer há quantos dias eu estava vestindo aquela bermuda amarrotada e aquela blusa preta sem estampas.
Dei uma cheirada na blusa.
Um tom de amaciante bem de leve.
Sinal de que de alguma maneira ainda limpa.
Foquei um pouco mais em meu rosto, olhando cada detalhe daquela expressão torta.
Quantos anos de verdade eu tinha?
Por uma fração de segundo vi um outro reflexo no espelho.
Um outro eu.
Mais jovial.
Mais altivo.
Mais espontâneo.
Me olhou com firmeza.
Um sorriso no canto da boca.
Intrigado, desviei o olhar.
O que teria sido aquilo?
voltei para o quarto e me deitei.
Pensativo, passei a olhar mais ao redor.
Porque nunca mudei esses móveis de lugar ou troquei esse quadro antigo e sem propósito que esta ha anos preso na parede?
Olhei meus pés: limpos e lisos.
Olhei minhas mãos: macias como algodão.
Uma olhadela rápida pra estante de livros: intacta e empoeirada.
Evitei até então olhar para o porta retratos na escrivaninha, mas agora não tinha mas jeito.
E como eu já sabia, la estava a foto de alguém que eu nunca mais viria na vida.
Estava la como um selo, uma etiqueta, um código de barras que contem todas as informações necessárias para se entender sobre um produto.
Nesse caso, entendi a mim mesmo.
Levantei me, tirei todas as minhas roupas.
Nu, abri o guarda roupas  procurando por aquela camiseta que ganhei no ultimo natal que nunca tinha usado.
Pequei uma calça que não costumo vestir e a separei a também.
De volta ao banheiro, fiz a barba, cortei as unhas e me joguei embaixo do chuveiro.
Fiquei por horas ali me limpando, me purificando.
Numa ideia louca de trocar de pele a todo custo.
Sai e fui me vesti.
Liguei o computador, procurei pelo CD do Gloom, banda que uma amiga havia me indicado ha um tempo atras mais que nunca tinha tido a iniciativa de buscar conhecer.
Coloquei o volume no máximo.
Curti aquela primeira musica como se fosse um prato saboroso.
Deixei o som rolar e comecei a reorganizar meu quarto.
Mudei livros, posição das coisas, joguei algumas fora, coloquei outras em destaque.
O antigo quadro não tem mais espaço ali.
O porta retratos tão pouco.
Do quarto, passei pra casa.
O CD rodando sem parar.
Gastei 4 horas.
Tudo mudado.
Tomei outro banho e fui na rua.
Comprei algumas roupas novas, cortei meu cabelo, mudei meu perfume.
Na volta pra casa, passei por outro caminho.
Observei ao redor, os prédios, as poucas arvores, os pássaros lutando para se encaixar em postes.
Transeuntes sem rostos esbarrando em outros transeuntes.
O sol brilhando fraco, mas preciso.
Uma brisa leve denunciando uma possível chuva.
Um "boa tarde" perdido entre a frieza dos vizinhos.
Entrei.
Coloquei novas roupas, usei um novo perfume, ouvi novamente aquela primeira musica.
Peguei meu celular e mandei uma mensagem pra uma pessoa que há tempos não via.
Mas que no fundo eu sabia, estava aguardando um contato meu:
"Que dia é hoje?"
5 minutos depois, a resposta:
"Sexta-Feira"
Mandei:
"Qual dia deveria ser?"
Demorou um pouco mais dessa vez, mas veio com a resposta que eu esperava de alguém como ela:
"O Bom humor voltou a reinar ai na Fortaleza Abandonada?"
Pronto!
Era o que eu precisava.
Naquela noite não ficaria em casa sozinho.
Muito menos voltaria tão cedo.
Cheguei de madrugada, com um sorriso no rosto e cantarolando o refrão da musica que ouvi mas cedo.
Fui dormir pensando no dia.
E com a certeza que nunca mais voltaria a vê-lo.
Eu me fiz o novo dia.
Eu me fiz a vida!

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